Pesquisar

QUEBRADA DA PEDRA QUE BRADA / A. S. Klafke

As professoras/pesquisadoras Ana Cristina Tannús Alves e Susanna Busato Feitosa, da UNESP, publicaram, em 2005, o ensaio Marginália e Contracultura: em busca do discurso poético de Aristides Klafke. Escreveram: “Comparada a um discurso reconhecidamente poético, no sentido de alto teor de qualidade artística como a poesia cabralina, a poesia marginal traz à baila a proposta conceitual de uma arte ‘antiliterária’, portanto, recoloca uma discussão metalinguística e teórica. Desta perspectiva, notamos a opção dessacralizadora frente a uma tradição poética estabelecida, ou seja, uma postura que leva ao radicalismo experimental na adoção de que a poesia está na vida em detrimento da ação especificadamente literária: a escrita. Nesse sentido, Aristides Klafke opta por uma escritura marginal, ou seja, a sua poética desconstrói o discurso hegemônico, as formas de linguagem valorizadas pelo sistema. Feitas as considerações, partamos para a leitura de um poema de Aristides Klafke, a fim de vislumbrarmos a proposta de uma ‘escritura de repulsão’ para usarmos o conceito de Roland Barthes.

ordem e progresso
árduo regresso

“Nos moldes de um hai-kai, o poema de Klafke aborda de modo instantâneo uma situação corrente no período: o exílio. Com este assunto, o poeta tematiza o problema Brasil que se delineia enquanto horizonte opressivo de árduo retorno. Ao transpor o famoso lema positivista ‘ordem e progresso’ (frase que retoma metonimicamente os dizeres da bandeira brasileira) para uma estrutura poemática, Klafke reflete sobre a retomada do sentimento do nacionalismo, objeto de disputa entre direita e esquerda. A sua crítica desvela a crise da hegemonia nacionalista nos campos estético e ideológico, absorvida por ambas categorias de poder. “Aristides Klafke subverte a noção de uma sociedade hierarquizada sob preceitos e ideias de modernização, afinal o momento é propício para implantação dos meios de comunicação de massa, que passa a ter um poderoso argumento na formação de gostos e sensibilidades. Vemos, então, a difícil volta (árduo regresso) para esse mundo oportunista e ideologicamente agressivo. O poema ‘ordem e progresso’ de Aristides Klafke, tanto no assunto quanto na maneira de expressão, demonstra a descrença ao que é oficial, principalmente à linguagem instaurada pela impostação intelectualizada das vanguardas. E na medida em que esses valores poéticos são postos em pauta, registra-se uma literatura peculiar, desenvolvendo-se enquanto ‘uma produção que escapa aos cânones estatuídos pelo foco dominante, seletivo’, segundo atesta Tânia Pelegrini.”

deste planeta
neste fim de tarde
tirando os aromas
dispenso tudo

morro pelo meu país
como morre o morro
pelo precipício.

Chegará o dia em que ninguém suportará
ler três linhas sequer a não ser de números,
esse dia chega pra mim.

Recado
Estruturas a romper
As palavras em rebeldia:
Usamo-las!

Serviço:

Quebrada
Da Pedra que Brada
A. S. Klafke

Scortecci Editora
Poesia
ISBN 978-85-366-7081-2
Formato 14 x 21 cm
64 páginas
1ª edição - 2025